Sob a solicitação feita pelo Prof. Tolentino na última aula (22/03/07), anuncio que a personagem secundária escolhida para o meu estudo pessoal é a Família e os amigos de Cornélio, segundo aparece em Act 10, 24: «No dia imediato chegaram a Cesaréia. [isto é, Pedro com três homens vindos da Cesaréia e os irmãos de Jope; Cf. Act 11, 11-12] Cornélio os estava esperando, tendo já convidado os seus parentes e amigos mais íntimos».
DesenvolvimentoLugar geográfico: Cesaréia, formosa cidade portuária helenista, situada a cerca de 48 km de Jope, foi capital da Palestina durante 600 anos. Construída por Herodes o Grande em 37-34 a.C., a partir do ano 6 d.C. foi lugar dos quartéis gerais dos centuriões romanos, inclusive Póncio Pilatos (26-36 d. C.), quando começaram a governar a Judeia. Ora, segundo Act 10,1, Cornélio era centurião da corte chamada «italiana». Contudo, isto parece um anacronismo, uma vez que o primeiro testemunho que temos da «corte italiana» é de Síria (69 d.C.), e não há provas de que houvesse um destacamento romano em Cesaréia antes da morte de Agripa I (44 d.C.).
Cf. Raymond E. Brown, Josef A. Fitzmeyer, Roland E. Murphy (eds.), Nuevo Comentário Bíblico San Jerónimo. Nuevo Testamento, Verbo Divino, Navarra, 2004, p.238.
Lugar teológico: os capítulos 10-11 de Act representam o ponto de viragem para a legitimação da Igreja pagão-cristã. Se em Act 9 se narra a conversão de Paulo, aqui aparece a conversão de Pedro: na visão de Act 10, 9-16, precedida pela visão de Cornélio (Act 10, 1-8), Pedro é chamado a acreditar no inacreditável, a saber, que a mesma experiência do Pentecostes no Cenáculo (Act 2, 1-13), e portanto em ambiente judaico, dá-se também em casa de pagãos (Act 10,44-48). Pedro é chamado a fazer uma leitura da realidade: «Ora, apenas começara eu a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, assim como nós no princípio. Lembrei-me então desta palavra do Senhor: ‘João, na verdade, baptizou com água, mas vós sereis baptizados com o Espírito Santo’. Portanto, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, que cremos no Senhor Jesus Cristo, quem seria eu para poder impedir a Deus de agir?» (Act 11, 15-17).
A Família romana: organizava-se à volta da figura do Paterfamilias, cuja pátria potestas ou dominium exercida na domus caracterizava-se pelo exercício de um poder absoluto não só sobre os filhos, mas também sobre os servos e os outros que habitavam com ele, segundo o conceito alargado que caracteriza a família romana. Trata-se portanto de um dominium não de ordem biológica mas sim jurídica. O seu papel era o de garantir a tradição dos antepassados preparando o jovem para a vida pública. Igualmente estava investido no ministério sacerdotal, em relação à religião familiar, pertencendo-lhe oferecer sacrifícios aos Lares e aos antepassados (Penates). [Cf. J. Geraldes Freire, «Pater famílias», in Enciclopédia Verbo Luso-Brasilera de Cultura, Editorial Verbo, Lisboa - São Paulo, 2002, volume 22, p. 358]. Afirma Plínio Jovem: «Segundo uma tradição antiga, devíamos aprender com os olhos e com os ouvidos os costumes que, por sua vez, deviam tornar-se nossos e que nós devíamos transmitir aos descendentes... Cada um tinha no seu pai um mestre e, se não tivesse pai, podia encontrar um pai no mais prestigiado e ancião dos senadores» (Ep. VII, 14, 4-5).
Desta forma, poderia avançar com uma conclusão: se em Act 10,44 afirma-se que «o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a Palavra», onde por «todos» se entende exactamente os que estavam em casa de Cornélio, então a conversão dos familiares e amigos de Cornélio passa pela sua conversão pessoal. Isto que dizer que, sendo ele o Paterfamilias, a sua adesão ao cristianismo implica a dos seus familiares, sobre os quais também caiu o Espírito.