24/05/2007

Campo semântico de ypomonê - makrothumia

Outro termo do campo semântico de upomonê é makrothumia e seus derivados. Assim, o verbo makrothumeô, que significa ter paciência ou ser paciente, aparece em Tg 5,7 (duas vezes); 5,8. O substantivo makrothumia, que se traduz por paciência ou longanimidade, surge em Tg 5,10 e 1 Ped 3,20.
No NT, encontramos 10 vezes o verbo, o substantivo 14 vezes e o advérbio uma única vez, sendo que nos Evangelhos só aparece o verbo (e apenas por três vezes) e que nos escritos joaninos ele não é de todo usado.
No NT, makrothumia não é apenas um atributo de Deus (e de Jesus), mas também uma característica do cristão. A makrothumia de Deus significa também a sua paciência, mas traduz concretamente a característica de um prazo durante o qual Deus retém a sua ira e quer dar aos homens a oportunidade de se converterem, iludindo assim o castigo divino e alcançando a salvação. Segundo 1 Ped 3,20, Deus aguardou pacientemente antes de enviar o dilúvio.
Num sentido mais profano, makrothumia encontra-se em Tg 5,7 (duas vezes).8.10. Tg 5,7 faz referência à parusia que se aproxima e exorta os irmãos a aguardar com paciência como o lavrador, a ser sempre pacientes e a resistir, como perseveraram Job (cf. upomonê, v.11) e os profetas.

A PALAVRA YPOMONÊ NA CARTA DE TIAGO

Ypomeô, em sentido figurado (apenas Lucas o usa em sentido espacial), significa permanecer, em vez de fugir; aguentar e suportar males (não se referindo em ocasião alguma a pessoas); permanecer firme em circunstâncias difíceis, mas nunca tem a acepção de aguardar e confiar em alguém. O verbo ypomeô pode aparecer em sentido absoluto (Tg 5,11), mas na maioria dos casos concretiza posteriormente o seu significado.
Num sentido ético geral, ypomeô significa a firmeza perante toda a classe de tentação para o mal (Tg 1,12; 5,11). Por outro lado, trata-se de uma atitude que não devolve o mal que se sofreu, mas que o aceita. Sofrer vexames, maus tratos, é frequentemente a sorte dos escravos. Se eles têm esta paciência para serem castigados pelas suas faltas, mesmo por aquelas das quais são culpáveis, isso não é motivo para se gloriarem (1 Ped 2,20 a), mas na maior parte dos casos é «coisa meritória diante de Deus» (1 Ped 2,20 b.c.).

A PALAVRA YPOMONÊ NA CARTA DE TIAGO

A palavra que escolhi é upomonê, que significa paciência, perseverança e constância. Aparece em Tg 1,3.4; 5,11, mas não se encontra na Primeira Carta de Pedro. Contudo, o verbo ypomoneô, que se traduz por suportar, aceitar sobre si, manter-se firme, surge em 1 Ped 2,20 (duas vezes) e em Tg 1,12; 5,11.
Ypomonê, substantivo derivado de upomoneô, significa a acção de permanecer firme e perseverar em determinadas circunstâncias, mas também o permanecer na esperança em vista do tempo que passa. No primeiro de estes dois casos observa-se uma deslocação do acento no que diz respeito ao uso geral do termo no grego; no segundo, uma deslocação no que diz respeito ao conceito de upomonê (ou da miqweh) no AT. O NT atribui a atitude da upomonê unicamente a pessoas, isto é, a cristãos. Em Tg 1,3, aparece associada com pistis e em Tg 1,4 liga-se a ergon. Ypomonê designa assim uma das exigências e virtudes cristãs correntes, e converte-se deste modo na instrução e palavra-chave da pregação eclesial. A upomonê já não se encontra tanto no campo de tensão entre os enunciados sobre o presente e os enunciados sobre o futuro. A carta de Tiago entende a upomonê como a perseverança nas provas da fé (Tg 1,3.4; 5,11).

Simão, o curtidor: já começa a aborrecer, mas...

A importância de Simão, o curtidor, reside no facto de Pedro se inserir já num contexto doméstico que antecipa a sua entrada na casa de Cornélio. Pedro é preparado, deste modo, tanto geograficamente como culturalmente, para exercer o seu papel de mensageiro à casa.
Um ponto a ter em conta é que Pedro (não sendo ele o anfitrião) acolhe os enviados de Cornélio na casa de Simão. Deste modo, ele introduz três homens pagãos (e portanto impuros) num espaço que lhes estaria, à partida, vedado. A casa de Simão, o curtidor, em cujo terraço Pedro tem a sua visão, é então o primeiro lugar onde pagãos e judeus coabitam sob o mesmo tecto. Instauram-se aqui dois movimentos, ambos tendo a iniciativa de Deus na sua génese, que conduzem cada um ao encontro do outro: assim, em Jope, os pagãos (representados pelos mensageiros de Cornélio) acedem à casa de um judeu; em Cesareia, são os judeus (Pedro mais os seus companheiros vindos de Jope) que entram na casa de um pagão.

Ainda um pouco mais sobre Simão, o curtidor

Cesareia é uma vila marítima pagã em território samaritano, com a agravante de ser a sede habitual do poder romano, e um judeu piedoso, tal como Pedro é descrito nos Actos, recusar-se-ia a lá pôr os pés. Jope, ao invés, era uma cidade prevalentemente judaica, a 50 km de Cesareia na costa mediterrânica, não distante de Jerusalém. Assim, esta superação das distâncias no plano topográfico antecipa a superação das distâncias no âmbito espiritual. De facto, Pedro ultrapassará a distância que separa o «puro» do «impuro»: acolhe os pagãos «impuros» em casa (10,23) e depois aceita a hospitalidade de Cornélio, permanecendo com ele e com os outros irmãos (10,48).

Reflexão teológica da palavra πειρα

Na vida concreta do cristão há duas forças opostas que se degladiam, pelo que a vida cristã tem o carácter de uma luta continua. Luta esta que se trava entre Cristo que vem fundar o Reino de Deus e as forças do mal (Mt 12,25-30.43-45). É no próprio homem que se dá esta batalha entre a sua concupiscência ainda não redimida e os efeitos da presença do Espírito Santo (Gal 5,16-25). Esta situação de perigo contínuo exige do cristão que não cesse de pedir a Deus que não o «deixe cair em tentação» (Mt 6,13).

πειρα no Novo Testamento

Deus sujeito das provações

O Novo Testamento conhece a provação na forma de contratempos e perseguições pelos quais a fidelidade do homem a Deus é experimentada. Sucumbir na provação significa apostasia total de Cristo (1 Pdr 4, 12, ss.).
Para os cristãos as provações devem ser um motivo de alegria, porque contribuem para o seu aperfeiçoamento espiritual (Tg 1,2-4; 1 Pdr 1,6ss.). Às provações pelo sofrimento pertencem as calamidades universais, eventualmente escatológicas, que hão-de vir sobre a humanidade (Mt 24,21ss; Ap 3,10). Mais outras circunstancias externas podem ocasionar a infidelidade a Deus, particularmente as humilhações do próprio Cristo (Mt 26,41; Lc 22,28), e a fraqueza física (Gl 4, 13ss.) ou as perseguições dos que pregam o Evangelho (1 Tes 3,4ss.).

Homem sujeito das Tentações

Quando os sofrimentos e as perseguições submetem os cristãos a uma prova, o demónio está lá para incitar a apostatar (1 Tes 3,4ss; Peirazwn; 1 Ped 5,8ss.)
Tiago (1, 12-15) observa que a tentação (não enquanto provação, mas enquanto seduz para o pecado) não vem de Deus, pois Deus é inacessível ao pecado, e Ele não leva ninguém ao pecado. A verdadeira causa da sedução é a concupiscência que mora dentro do homem. S. Paulo acrescenta que Deus não permite que a tentação seja acima das forças do fiel (1 Cor 10,13; cf. 2 Ped 2,9). As concupiscências da carne formam uma tentação contínua para toda a espécie de pecado (1 Ped 2,11).